Gilmara Silva atualmente é responsável pelo planejamento e gestão da plataforma de ensino a distância do Banco Santander com mais de 3.000.000 de cursos realizados, desenvolvendo um grupo de aproximadamente 55.000 funcionários.

Ano passado entregamos um projeto gamificado para o banco. A nova plataforma de integração foi criada com a colaboração dos próprios estagiários da instituição, que contribuíram com o conteúdo do serious game.

Segue abaixo algumas questões interessantes que a Gilmara respondeu para nós.

Aennova – Qual a sua visão sobre gamificação?
Gilmara Silva – Gosto muito da proposta de utilizar mecanismos de jogos para enriquecer qualquer contexto, seja ele para tornar uma tarefa mais agradável ou até mesmo transformar um processo educacional. Os jogos tornam os nossos momentos mais agradáveis, desafiadores e descontraídos.

Aennova – Os jogos são soluções de treinamento ou de seleção eficientes? Por quê?
Gilmara Silva – Não é de hoje que o Recursos Humanos utiliza-se de jogos como uma metodologia eficiente para uma série de atividades no mundo corporativo. O mecanismo pode auxiliar num processo seletivo ou simulações de situações que são rotineiras nas atividades da empresa. O mais importante a considerar é que o jogo precisa ser orientado em relação aos objetivos, conceitos, atitudes e habilidades a serem provocados, percebidos e desenvolvidos durante a sua aplicação. De nada adianta, ou não será muito eficiente, se não se sabe aonde se quer chegar ou o que se quer se medir ou despertar com o jogo. A sua eficiência depende muito, também, da habilidade do facilitador em orientar o grupo e dar devolutivas fazendo com que todos cheguem às conclusões necessárias.

Aennova – Como deve ser o jogo ideal?
Gilmara Silva – Não sei se existe jogo ideal. Tudo isso depende da proposta empregada e o contexto a serem trabalhados. As pessoas costumam confundir muito a ferramenta empregada com a sua utilização: acreditam que quanto mais complexo, sofisticado e tecnológico for o ferramental do jogo, melhor será o resultado. Às vezes, grandes jogos estruturados, mas mal empregados, ou empregados em contextos errados, não surgem efeito algum, como também já presenciei uma dinâmica de jogos baseada em um elástico de borracha, bem aplicado, provocar grandes reflexões e provocações. Acredito, portanto, que para se trabalhar com jogos é preciso um bom contexto, preparo, objetivos claros e, é lógico, certa habilidade. E isso é adquirido com o a prática. Quando se pensa nos jogos de autoinstrução, esse contexto, objetivos e habilidades são ainda mais importantes, porque eles refletirão toda a estrutura, dinâmica, construção e desfecho do jogo.

Aennova – Você acredita que os jogos sejam a tendência e o futuro do aprendizado? Por quê?
Gilmara Silva – Sim, cada vez mais estamos inseridos na realidade dos jogos, principalmente com os avanços tecnológicos que nos possibilitam cada vez mais experiências interessantes, sejam por realidade virtual, simuladores, formas novas de se olhar para processos antigos de aprendizagem ou de se obter novas experiências.

Aennova – Quais as diferenças e semelhanças entre um e-learning e um game?
Gilmara Silva – A princípio, os dois se utilizam de tecnologia. Temos iniciativas de e-learning puro, sem nenhum mecanismo de jogos, mas o oposto eu acredito que não acontece. Um jogo, por mais lúdico que seja, sempre trará embutido um processo de aprendizagem, que pode ser emocional, conceitual, uma habilidade, uma reflexão, algumas emoções… Não dá para passar pela experiência de um jogo e sair da mesma forma que entrou, e isso é o que mais considero rico em todo o processo, porque muitas vezes não nos damos conta, é mágico.

Na área educacional o que tem sido a realidade da maioria dos conteúdos de autoinstrução ainda são as experiências em e-learning puro, que acabam sendo muito mais técnicas e informativas. Não que esses assuntos não são possíveis de se trabalhar, mas para empregar uma metodologia baseada em jogos, é preciso levar em consideração o impacto, o prazo, a relevância do assunto e a perenidade do conteúdo, e, é claro, um bom parceiro no desenvolvimento que entenda muito bem da metodologia.

Geralmente a construção de um jogo passa por uma complexidade que necessita de maiores prazos que vão desde desenvolvimento, envolvimento do conteudista na construção e recursos financeiros aportados. Portanto, acredito que o jogo se emprega melhor em assuntos mais estratégicos da organização e de maior impacto ou que no mínimo tenha que provocar grandes transformações de comportamento.

Aennova – Você pode citar um case de jogo que tenha sido um sucesso e atingido as expectativas, superando outros mecanismos de seleção ou treinamento ou avaliação?
Gilmara Silva – Tivemos dois processos que considero cases de sucesso na organização: um foi um e-learning baseado em jogos sobre divulgação dos Direitos Humanos. Nele, o usuário era convidado a percorrer diversos países para desvendar os Direitos Humanos inseridos nos relatos de outros viajantes. Por meio de tomadas de decisões, ele aprendia sobre os Direitos Humanos de forma muito mais divertida.

A outra experiência foi com o Jogo dos Estagiários, no qual o próprio processo de construção já foi muito desafiador, pois cada estagiário era convidado a se inscrever no processo contando sua história. Caso ela fosse uma das escolhidas, seria transformada em um jogo a ser compartilhado com os demais. Esse processo já deixou os participantes num contexto de competição que foi muito saudável: todos puderam perceber que, dentro da sua realidade de estágio, tinham um conteúdo para compartilhar. O objetivo do jogo era poder retratar, por meio das histórias, as atitudes e deveres dos estagiários inseridos nas suas atividades do dia-a-dia e de forma moderna e muito mais descontraída.

O efeito tem sido muito positivo, desde o seu lançamento tivemos mais de 500 estagiários que passaram pelo jogo. Os relatos de participação tem sido incríveis, o que nos faz acreditar que devemos investir mais nesta metodologia.

Gilmara Silva atua há 19 anos na área de Treinamento e Desenvolvimento Educacional, sendo os últimos doze anos em Ensino a Distância. É formada em Psicologia Clínica, Educacional e Organizacional, com especialização em Tecnologias Aplicadas à Educação, MBA com ênfase em Gestão Ambiental pela FGV/RJ. Tem Formação de Web Designer, Pós em Educação a Distância: Planejamento, Legislação e Implementação – PUC, Especialização em Ensino a Distância Mediado por Computador – UNICAMP e Especialização em Administração da Tecnologia de Informação – GVPEC/SP. Blog: http://www.gilmarasilva.blogspot.com.br